

A casa que não queria ser vendida
Era só mais uma tarde de trabalho.
Mais uma rua para cobrir. Eu e minha colega avistamos uma casa grande, com jardim e espaço para dois carros — talvez mais. Batemos palmas. Logo fomos recepcionadas por um doguinho roliço. Atrás dele, saiu ela. Uma senhora de aspecto frágil. Lindos olhos azuis, cabelos brancos na altura dos ombros. — Pois não? — perguntou. — Boa tarde! Somos da imobiliária e estamos fazendo uma prospecção na região. A senhora é uma das proprietárias do imóvel? Ele está à venda? Ela respirou. — Eu sou uma das proprietárias. Quanto à venda, por mim, jamais venderia. Mas meu irmão colocou a placa. Havia alguma coisa naquela voz. Um misto de conformismo e pesar. Olhei novamente para a casa. Era um grande sobrado. O portão, em estilo de serralheria artística, era daqueles que quase não se encontram mais. Na lateral direita, um jardim considerável. Precisava de manutenção, é verdade, mas ainda guardava uma variedade bonita de plantas, flores e vasos. A casa parecia espremida entre dois prédios. E então, sem perceber, aquela senhora começou a nos contar uma história. Disse que havia sido criada ali. Até o casamento. Falou sobre o progresso. Sobre as transformações da cidade, do bairro e, principalmente, daquela rua onde viveu a infância e a juventude. — Eu não sou contra os prédios... mas devia existir um estudo. Veja só: aqui ao lado era um sobrado, tão grande quanto o meu. Foi vendido. Derrubaram. Virou esse prédio. A mesma coisa do outro lado. Apontou para o edifício à frente. — Esse prédio grande tirou todo o sol que batia na minha casa. Fez uma pausa. — Nunca vi esses vizinhos. Não sei quem são. E então veio a frase que ficou comigo: — Antigamente a gente conhecia todo mundo. Falava bom-dia. Papeava no portão. Agora só vejo carro que entra e sai. Vidro escuro. Janela fechada. Enquanto eu a ouvia, pensei na verticalização que o bairro vem vivendo. Quando cheguei aqui, há sete anos, havia um ou outro prédio, alguns sem condomínio. Depois da pandemia, eles começaram a se multiplicar. Havia ruas onde se viam três, quatro prédios sendo finalizados ao mesmo tempo. Mais gente. Mais carros. E o reflexo disso no trânsito. Às seis da tarde, a Martim Francisco começava a congestionuar. Meu lugar, pouco a pouco, parecia perder aquele charme de cidade do interior. A calmaria. O comércio que baixava as portas no fim do dia. As ruas silenciosas. As pessoas dentro de suas casas. Mas a senhora continuava. E seus olhos brilhavam enquanto descrevia a rua da sua infância. — Brincávamos aqui de roda, de pega-pega. As moças mais velhas passavam de casa em casa chamando os menores para irem brincar na rua. Sorriu. — As mães saíam com seus aventais e ficavam conversando. Falavam de receitas, de algum remédio caseiro... Apontou para outro lugar. — Ali era uma vendinha. Comprávamos pão, leite... tinha de tudo um pouco. Balas e doces. E continuou: — Aos domingos íamos à missa. Atrás da igreja havia um bosque. Era muito lindo... Uma pena terem derrubado. Depois, quase como quem faz uma última defesa daquilo que ama, disse: — Como eu disse: não sou contra o progresso. Mas podia deixar mais verde. Silêncio. — Sabia que todo o bairro ajudou a arrecadar dinheiro para construir a torre da igreja? Sorriu novamente. — Sim... velhos tempos. Bons tempos. Não pude deixar de cantarolar, em pensamento, uma canção da Gal Costa. Jovens tardes de domingo... Parecia que aquela senhora trazia, na própria voz, o refrão: O que foi felicidade, agora me mata de saudade. E nós também fomos tomadas por aquela saudade. Uma saudade curiosa, porque nunca havíamos vivido nada daquilo. Encerramos nossa triagem. Saí dali sentindo até uma pontinha de culpa por ter perguntado sobre a venda da casa. Por um instante, eu também quis que os desejos daquela senhora se realizassem. Que aquela casa permanecesse ali. Com seu jardim precisando de cuidado. Seu portão antigo. Suas memórias. E aquele sol que, um dia, entrava pela janela. Quando foi que abrimos mão da sutileza? Quando foi que perdemos a capacidade de nos alegrar com as mesmices da vida comum? Sem curtidas. Sem visualizações. Sem precisar registrar tudo. Apenas uma rua. Uma roda de crianças. Uma conversa no portão. Uma mãe chamando para o banho. E alguém gritando da cozinha: — Entra! Está na hora do banho e do jantar! No fim, saí daquela casa com uma pontinha de inveja. Não da casa. Nem do jardim. Mas daquelas tardes em que a felicidade não precisava ser fotografada para existir. Belos tempos. Belos dias. E talvez o verdadeiro luxo de uma cidade seja justamente não perder a capacidade de lembrar deles. Para Dona M., moradora da Rua Guatemala. Algumas histórias a gente encontra por acaso. Outras parecem estar esperando alguém disposto a escutá-las.
Fabiana Ferreira Lopes
Enviado por Fabiana Ferreira Lopes em 29/08/2026
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