

Outro dia. Tudo outra vez.
Outro dia. Tudo outra vez.
Um dia pesado. De céu azul e sol. E, por dentro, terrivelmente cinza e nublado. Você ri. Responde até com cordialidade. Agradece o elogio sobre a roupa, o cabelo, o batom. E segue. Faz o que esperam. Você é útil. Funcional. Enquanto bebe o café, paga outro boleto e responde a uma postagem, até esquece aquele cinza. Aquele peso. A mente é ágil. Parece dar conta de tudo. Só não dá conta de você. Sua pressão não sai mais da casa dos 15 por 10. A dor de cabeça virou rotina. Só mais uma aspirina. Você morde o canto da boca até sentir o gosto acre do sangue. Mistura de café, clonazepam e lágrimas. E, no meio disso, a vida acontece. Metrô lotado. Gente indo. Gente vindo. Gente rindo. E você... fingindo. Você busca um espaço onde ainda caiba. Onde ainda possa ser, gente. Depara-se com frases, mantras, reprogramações... "Agradeça." O dia. A comida. A roupa. O ar. O tempo. O tormento. E você se sente pequena demais. Porque daria tudo para simplesmente desaparecer. E se contém com o pouco de sanidade que ainda restou para não cometer alguma barbaridade. E, sim, existe acolhimento. "Não seja assim." "Não pense assim." "Supere." "Perdoe." "Evolua." "Transcenda." E ainda é uma quinta-feira. Então você percebe o quanto está distante de qualquer sentimento de compaixão ou benevolência. Alguém manda uma mensagem elogiando sua última postagem. Mal sabe o quanto aquilo lhe custou. De repente, tudo custa um preço alto demais. E você se pergunta como seria viver sem o peso das cobranças e das expectativas. Sente-se presa numa engrenagem. Não muito diferente de um rato de laboratório. Questiona o que é, de fato, liberdade. E se ela talvez não seja o bem mais valioso da existência humana, embora quase ninguém perceba. Sua cabeça dói. Você toma outro captopril. Outro Doril. Um gole de café. Outro de energético. As horas parecem intermináveis. Tudo o que você deseja é que o dia termine. Sonha em chegar em casa. Tomar um banho. Encontrar, enfim, um pouco de paz. Mas, mal a porta se abre, outro tipo de tormenta a espera. Entre cobranças e exigências, você percebe que não tem lugar no mundo. No máximo, é útil. E nada mais. Resolve. Organiza. Paga. Gerencia. Tire isso... E sobra o quê? Nem carinho. Nem empatia. Nem amor. Você toma banho e chora debaixo do chuveiro. O corpo quebrado. A alma fragmentada. Enquanto se seca e encara o espelho, assusta-se. Quem é essa mulher diante do reflexo? Você força um sorriso e sente um tremor no canto do rosto. Esfrega o espelho embaçado. A dor de cabeça persiste. Agora as têmporas latejam. "É só cansaço." Mas cansaço de quê? Do corpo fustigado... Ou do espírito oprimido? Você sacode a cabeça enquanto enxuga os cabelos, numa tentativa desesperada de expulsar o que a consome. Toma outro comprimido. Para relaxar, afoga a mágoa no vinho. Você até queria alguém. Mas quem? Olha ao redor. Não há ninguém. Deita-se e espera o sono. Os pensamentos a castigam. Você já não reza mais. Há tempos deixou de crer. Rola de um lado para o outro. Lembra do tempo em que havia alguém naquele espaço vazio. Sente falta. Do calor. Da suposta proteção. Então recorda por que ali não há ninguém. E chora. Sufocando o gemido no travesseiro. Por fim, adormece. Não sabe se por cansaço... Ou por desespero. E, justamente quando acredita ter encontrado um instante de paz... O despertador toca. Outro dia. Tudo outra vez.
Fabiana Ferreira Lopes
Enviado por Fabiana Ferreira Lopes em 06/08/2026
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