Fabiana Ferreira Lopes

" A vida só se da para quem se deu" Vinicius de Moraes

Textos

O que estou fazendo aqui
Enquanto eu sorvia outra taça de vinho, ouvindo aquela música, mistura de tristeza e desolação, não pude evitar voltar no tempo.

Mirei de cima a baixo aquele homem. Os sinais do tempo estampados na face e nas mãos. A roupa meio puída, com vestígios da labuta.

Parei e pensei, entre um respiro profundo:

O que estou fazendo aqui?

O choro veio, mas o reprimi na garganta.

Senti um misto de angústia e fracasso.

Enquanto bebia, ele fazia apostas ordinárias na maquininha.

Nada de diferente. Nada fora do contexto de quase uma década.

E, ainda assim, aquele peso.

Lembrei de quando o conheci.

Aquela mistura de ferro e o perfume Kaik. A pele alva, o corpo esguio, a barba grisalha.

Tudo aquilo me entorpeceu.

A conversa fácil.

De encontro casual a casal.

Não à toa, a ciência considera a paixão uma disfunção química.

Ninguém podia crer numa união tão contraditória... Oito e oitenta. A diferença de idade, de gosto, de estilo.

Mas a química.

Ah... a maldita química dos sentidos e dos gemidos.

Quando ele me disse que pagaria qualquer preço e me daria muito mais que endereço e sobrenome, senti-me meio rainha.

Por um tempo, o conto de amor e cabana pareceu suficiente.

— Escuto: “Está tudo bem?” “Quer outra taça?”

Dou meio sorriso. Aceno, assentindo com a cabeça.

Sinto-me quase cretina.

Tenho vontade de levantar e sair sem olhar para trás. Algo em mim diz que seria justo. Uma vez que todas as juras e promessas não passaram de mera falácia.

Permaneço ali.

Sorvo mais um gole do vinho tinto.

Minha mente percorre tempo e espaço com a velocidade da luz.

Houve um tempo em que os beijos, o sexo e as promessas eram suficientes.

Em que cada tentativa, regada a um “próximo mês será diferente, vamos acreditar!”, era suficiente.

E, quando dei por mim... os anos haviam passado.

Agora, além da figura dele, mais acentuada pelo tempo, havia a minha.

Da jovem moça de quarenta e poucos anos à quase meio século... parecia que tinha passado um milênio.

Repetindo. Repetindo.

As mesmas desculpas, os mesmos lugares. As intermináveis cobranças e acusações.

E, no fim, toda aquela paixão, quase instintiva, num leito de UTI.

Pegar a bolsa, ir embora, partir.

Era isso que os mais próximos diziam.

Outros, mais atrevidos, perguntavam o que eu estava ganhando.

Eu ouvia a todos, desolada.

A intenção nunca foi ganhar.

Mas entregar o coração a alguém experiente da vida. Da vida como ela é. Um porto. Um cais.

Só não percebi que acabei esperando um “cavaleiro” para salvar-me da minha torre e do meu dragão.

Mas a vida real atirou nos dois a isso.

Um misto de culpa e arrependimento sufoca-me.

Ainda sinto amor.

Ainda sinto saudades do que foi sem nunca ter sido.

Ele segue. Convicto de que fez muito. E, por mim, ainda faz além do necessário.

Meus olhos marejam. Ninguém percebe. Nem mesmo ele, que diz me amar tanto.

Disfarço sem grande esforço. Percorro, entre uma taça e outra, aquilo que parecia uma vida inteira.

Retorno à realidade.

Ainda estou naquela mesa.

Naquele lugar.

Poderia pegar a pequena bolsa, sair e nunca mais voltar.

E o quê, de verdade, me impediria?

Ele se aproxima.

Voz rouca.

Um cheiro de ferro e suor.

Um sorriso.

Um leve beijo nos lábios.

E um:

— Eu te amo.

Enquanto mais alguém se aproxima, cumprimenta, olha-me de esguelha e o parabeniza.

Pareço um troféu.

Fico imóvel.

Não levanto.

Não vou embora.

Repito:

— Também te amo.

Aceno com um sorriso aos olhares interrogatórios.

A música, mistura de lamento e mau gosto, persiste.

A tarde acaba.

A noite chega.

Eu fico.

Sem deixar de perguntar outra vez:

O que estou fazendo aqui?
Fabiana Ferreira Lopes
Enviado por Fabiana Ferreira Lopes em 02/08/2026
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