

Agosto
Agosto começou.
Começou com um solzinho e céu azul. Nem parece inverno. Enquanto bebo uma xícara quente de café, penso no quanto eu não gosto de agosto. A birra vem da frase popular: “agosto, mês do desgosto”. E sim, eu já sei. Os pseudo-terapeutas do positivismo tóxico irão retaliar minha frase com um monólogo explicativo sobre crenças limitantes. Porém, hoje, eu me recuso. Agosto, para mim, pesa. É um mês em que o inverno parece decidir fustigar nossos ossos de uma vez só. As noites são geladas, acompanhadas de uma garoa finíssima. Quando você percebe, está com a alma molhada e gelada também. E eu, particularmente, não gosto do inverno. Nem do frio. Nem da garoa. Não vejo beleza no céu cinza, fechado, nem no sol encoberto pelas nuvens. Enquanto divago nessas quimeras, sobre a mesa está um relatório médico. Um afastamento. O CID é sobre ansiedade e depressão. O relatório me leva para um afastamento superior a quinze dias. Imediatamente imagino a tortura burocrática de esperar por uma perícia. Um descaso sem precedentes. O médico me diz: — É preciso parar. Fazer o tratamento. Tomar a medicação. Fazer terapia. Penso em responder que minhas contas, boletos e todas as outras obrigações de uma mãe solo, atípica e chefe de família não irão parar para que eu possa me curar. No fim, desisto. Mas os papéis estão aqui. Tomando café da manhã comigo. Fui ágil e encaminhei tudo para os trâmites da perícia. Em análise. Até a deliberação e a anuência de que não estou apta ao trabalho, fico sem receber. E preciso usar de tato e diplomacia. Expor, de maneira sutil, aos credores, a possibilidade de novos atrasos. Aqueles que já têm se repetido. Virou uma constância. Assim como minhas idas e vindas ao psiquiatra. E como pesa essa palavra... Psiquiatra. O estigma em torno dela é gigantesco. Relutei em ir dessa vez. Fiquei pensando em todos os contras, em todas as perguntas, em todas as críticas. A maioria das pessoas acha — trabalha com achismo, na verdade — que saúde mental é frescura. Falta do que fazer. Falta de um “Deus” na vida. Sendo mulher, só piora. Falta de um “homem”. Ou de um “tanque de roupas sujas” para lavar. Bem... Depressiva ou não, minha rotina não mudou. Ainda levanto às 5h45. Ainda preparo o achocolatado do meu filho. Ainda supervisiono se ele pegou tudo o que precisa para ir à escola. Lavo a louça. Varro a casa. Organizo bagunças. Sim. A vida não para para que você se conserte. E eu queria que ela parasse. Uma colega me cobra, com gentileza, presença. Eu parei de fazer coisas gostosas para mim. Não tenho ido ao clube com as crianças. Nem ao meu adoradíssimo karaokê. A rotina: trabalho, casa, filhos, boletos... Ininterrupta. O trem. O metrô lotado. Até que, numa manhã, houve uma pane no trem e no metrô. Um mar de gente disputando espaço para entrar nos vagões. Uma espera de vinte minutos entre um trem e outro. Foi me dando um treco. De repente, vi tudo girar. A pressão subiu. O barulho das pessoas parecia pressionar cada parte do meu corpo. Saí dali desesperada. Voltei para casa. Entrei. Chorei no banho. E naquela noite não consegui conciliar o sono. Não voltei mais ao trabalho. Dias depois, o médico atestou: Transtorno misto de ansiedade e depressão. Eu até queria aceitar o convite da minha colega. Falar de coisas triviais. Rir das bobagens das redes sociais. Bebericar um vinho ou uma cerveja. Mas não consigo. Assim como não consigo viver momentos de intimidade. Num relacionamento de quase sete anos, existe um abismo silencioso de entendimento disfarçado. E tudo isso num agosto. Talvez mera coincidência. Ou talvez, como afirmam os pseudo-gurus, eu vibre tanto contra agosto que ele apenas ressoe tudo de ruim em mim. O café gelou. Esqueci. Como tenho esquecido outras pequenas coisas. O dia chega quase à sua metade e parece interminável. Agosto ainda está no primeiro dia e já parece infindável. Levanto. Deixo os papéis, laudos e receitas empilhados em um canto da mesa. Sigo para a cozinha. Tem louça para lavar. Roupa para lavar. E, durante mais trinta dias, essa rotina. A vida continua. Mesmo quando a gente não consegue. E talvez essa seja a parte mais cruel de adoecer: o mundo não pausa para que você consiga se consertar. Mas como a gente se conserta se não pode pausar? É... Para mim, agosto vai custar a passar.
Fabiana Ferreira Lopes
Enviado por Fabiana Ferreira Lopes em 01/08/2026
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