Fabiana Ferreira Lopes

" A vida só se da para quem se deu" Vinicius de Moraes

Textos

A espera
Há vinte anos, era comum ver as salas de espera dos consultórios médicos repletas de mães levando seus filhos às consultas de rotina com o pediatra.

Hoje, as salas continuam cheias de mães e filhos. A diferença é outra: a especialidade mais procurada é a Neurologia.

Crianças atípicas. Crianças neurodivergentes.

Assim como o meu filho, hoje com 13 anos, diagnosticado com TDAH aos 5 e com TEA nível 1 de suporte aos 11.

Eu acreditava que manter a caderneta de vacinação em dia e realizar os exames de rotina já era uma tarefa hercúlea para uma mãe que, além da maternidade, carrega sozinha, muitas vezes, a gestão da casa e da família. Descobri que isso é pequeno diante da maternidade atípica.

São exames complexos e de alto custo. Medicações. Terapias. Consultas com diferentes especialistas. Em muitos casos, reforço escolar. Uma rotina que exige tempo, recursos e uma capacidade quase infinita de reorganizar a própria vida.

Enquanto observo a sala lotada, percebo no rosto daquelas mães a mesma sobrecarga que também carrego.

Nossos filhos exigem atenção redobrada. Cuidados redobrados.

Esperar em uma sala cheia, tomada por conversas, choros, televisores ligados, luzes intensas e perfumes misturados, para alguns deles é um verdadeiro martírio.

Digo pelo meu.

As pernas inquietas. O corpo curvado. Os cabelos caídos sobre os olhos numa tentativa silenciosa de evitar o contato com tudo ao redor.

Na tentativa de conter o incontível, observo quase todas as crianças com uma tela nas mãos. Celulares e tablets se tornam, muitas vezes, a única estratégia possível para amenizar a impulsividade, a inquietação e o sofrimento daquela espera.

O meu, por ser mais velho, está sem nada nas mãos. Confesso que sou bastante firme quanto ao uso desenfreado de telas — uma batalha que nem sempre consigo vencer.

E não escrevo isso como julgamento.

Eu compreendo profundamente a necessidade dessas mães. Todos nós buscamos, da melhor forma possível, adaptar nossos filhos a uma realidade que, tantas vezes, ainda não está preparada para acolhê-los.

Também conhecemos o peso dos olhares.

Os cochichos.

Os sussurros.

"Falta educação."

"Ela não sabe controlar o próprio filho."

Sim.

Nós passamos diariamente pelo julgamento. Muitas vezes, vindo de outras mulheres. De outras mães.

Dentro do consultório, apenas uma médica para atender toda a demanda que aguarda do lado de fora.

Ainda é difícil encontrar neurologistas especializados no acompanhamento de pessoas neurodivergentes, embora esse número venha crescendo.

Os convênios ficam cada vez mais caros e, ainda assim, parecem pouco preparados para atender nossas necessidades. Guias. Autorizações. Carências. Burocracias.

E nós temos pressa.

Pressa de oferecer aos nossos filhos todo o apoio de que precisam.

Porque, lá fora, o mundo nos exige laudos, relatórios, exames e documentos para reconhecer direitos que deveriam ser garantidos com mais humanidade.

Às vezes me pego pensando que, se pudessem, talvez nos isolassem dos demais, como já aconteceu com tantas outras condições ao longo da história.

Meu senso jurídico questiona se isso não acontece apenas porque a legislação não permite.

A consulta atrasa.

Vejo meu filho balançando o corpo para frente e para trás. As pernas não param.

Sei exatamente o quanto aquela espera lhe custa.

O excesso de barulho.

As luzes.

Os cheiros.

As pessoas.

Tudo pesa.

Tudo invade.

Tudo cansa.

Então tento confortá-lo com aquilo que ainda está ao meu alcance.

Um afago.

Um sorriso.

Um simples:

— Eu te amo.

Quem dera eu pudesse construir um mundo perfeito para ele.

E qual mãe, naquela sala de espera, não alimenta exatamente o mesmo desejo?

Como isso não nos é possível, seguimos.

Com bravura.

Com resiliência.

Com amor.

Até que, enfim, a porta se abre.

Chamam pelo nome do meu filho.

Por hoje...

A espera acabou.
Fabiana Ferreira Lopes
Enviado por Fabiana Ferreira Lopes em 29/07/2026
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