

Enquanto comemoram a inteligência artificial, esquecem quem ainda move o Brasil
Há uma narrativa que se tornou frequente nas redes sociais: empresários bem-sucedidos lamentam o "peso" de empreender no Brasil. Entre as reclamações, aparecem os mesmos alvos de sempre: férias remuneradas, décimo terceiro salário, licença-maternidade, estabilidade da gestante, afastamentos por doença, encargos sociais e a Consolidação das Leis do Trabalho.
O discurso é sedutor porque simplifica um problema complexo. Sim, o Brasil é burocrático. Sim, o sistema tributário é caro e confuso. Sim, empreender aqui exige resistência. Mas transformar direitos trabalhistas em vilões da economia é inverter a história. Esses direitos não nasceram da generosidade de governos ou empresas. Foram conquistados após décadas de jornadas exaustivas, acidentes fatais, trabalho infantil, exploração feminina e absoluta ausência de proteção social. Cada artigo da legislação trabalhista carrega a memória de alguém que sofreu para que outro não precisasse sofrer novamente. O problema é que, no século XXI, ainda convivemos com práticas que deveriam pertencer ao passado. O assédio moral continua adoecendo trabalhadores. Acidentes de trabalho ainda resultam em abandono. Gestantes seguem enfrentando discriminação velada. Trabalhadores adoecem e, muitas vezes, passam a ser vistos como custo, e não como pessoas. A tecnologia mudou. A lógica de parte do mercado, nem tanto. Vivemos uma época em que inteligência artificial, automação e robótica ocupam as manchetes. Alguns chegam a anunciar o fim da necessidade da força humana. Entretanto, essa previsão ignora uma realidade elementar: o Brasil continua sendo sustentado por milhões de trabalhadores que acordam antes do sol para manter hospitais funcionando, transportar mercadorias, construir cidades, produzir alimentos, atender clientes, cuidar de idosos, ensinar crianças e fazer a economia girar. A inteligência artificial pode automatizar tarefas. Ela não substitui a dignidade. Ela não elimina a necessidade de justiça. Ela não torna descartável quem produz riqueza. Karl Marx escreveu, no século XIX: "Trabalhadores de todos os países, uni-vos." Independentemente de concordarmos com toda a sua obra, essa frase continua provocando uma reflexão importante: trabalhadores isolados são frágeis; trabalhadores conscientes de seus direitos conseguem equilibrar relações que, por natureza, possuem enorme desigualdade de poder. Não se trata de defender conflito permanente entre capital e trabalho. Não se trata de demonizar empresários, muitos dos quais também enfrentam dificuldades reais para manter seus negócios de pé. Trata-se de reconhecer que uma economia saudável depende de dois pilares inseparáveis: empresas fortes e trabalhadores respeitados. Quando um desses lados é tratado como descartável, toda a sociedade perde. Talvez o maior desafio do Brasil não seja escolher entre desenvolvimento econômico e proteção social. O verdadeiro desafio seja compreender que um não existe sem o outro. Enquanto parte da população se distrai com apostas esportivas, reality shows, polarizações vazias e guerras culturais fabricadas, questões que impactam diretamente a vida de milhões de brasileiros passam despercebidas. Direitos trabalhistas não são privilégios. São mecanismos mínimos de proteção da dignidade humana. E a democracia não se exerce apenas nas urnas. Ela também vive na organização da sociedade civil, na atuação sindical responsável, nas associações de trabalhadores, no diálogo institucional e na defesa permanente das garantias constitucionais. A tecnologia continuará avançando. A inteligência artificial ficará mais sofisticada. Os robôs executarão tarefas cada vez mais complexas. Mas nenhuma inovação tecnológica será capaz de substituir o valor de uma sociedade que compreende que desenvolvimento econômico e dignidade humana devem caminhar lado a lado. Porque toda riqueza, antes de aparecer em um balanço financeiro, passou pelas mãos, pela inteligência e pelo esforço de alguém. E isso, até hoje, nenhuma máquina foi capaz de apagar.
Fabiana Ferreira Lopes
Enviado por Fabiana Ferreira Lopes em 24/07/2026
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