Fabiana Ferreira Lopes

" A vida só se da para quem se deu" Vinicius de Moraes

Textos

Há dias em que a vida parece escrita por um dramaturgo impiedoso.

Prometeu acorrentado por entregar o fogo aos homens.

Atlas condenado a sustentar o peso do céu.

Sísifo destinado a empurrar eternamente uma pedra que jamais permanecerá no alto da montanha.

Durante muito tempo olhei para esses mitos como histórias sobre castigo. Hoje os leio de outra forma: são histórias sobre resistência.

Ontem li o laudo médico de uma amiga. Um diagnóstico que traz consigo uma palavra pesada demais: metástase. Com ela chegam o medo, a incerteza e uma pergunta silenciosa que ninguém deseja fazer: "quanto tempo?"

Enquanto pensava nela, pensei em mim. Nas montanhas que subi para vê-las desmoronar. Nos projetos interrompidos. Nas perdas. Nas vezes em que senti que a vida parecia decidir por mim, como se fôssemos apenas peças em um tabuleiro cujo jogador jamais se revela.

É fácil imaginar um deus sentado em seu trono distribuindo destinos. Difícil é compreender por que alguns fardos parecem tão desiguais.

Talvez nunca compreendamos.

Mas há algo que esses três mitos compartilham: nenhum deles deixa de ser quem é por causa da sentença recebida.

Prometeu continua oferecendo luz.

Atlas continua sustentando.

Sísifo continua caminhando.

Nenhum vence o destino. Todos, porém, recusam-se a permitir que o destino lhes roube a identidade.

Talvez a grande rebeldia humana não seja derrotar a morte, a dor ou o sofrimento. Talvez seja continuar amando quando existe motivo para endurecer. Continuar sonhando quando a realidade aconselha desistir. Continuar acreditando quando a lógica já foi embora.

Somos pequenos. Muito menores do que gostaríamos de admitir.

Mas existe uma força curiosa na pequenez humana. Sabemos que somos finitos e, mesmo assim, plantamos árvores cujas sombras talvez nunca veremos. Educamos filhos para um futuro que não controlaremos. Escrevemos livros, criamos projetos, construímos amizades e fazemos promessas sabendo que tudo é provisório.

Talvez isso seja o verdadeiro fogo de Prometeu.

Talvez esse seja o mundo de Atlas.

Talvez essa seja a pedra de Sísifo.

Não continuamos porque acreditamos na garantia da vitória.

Continuamos porque existe uma forma de esperança que não depende do resultado.

E, enquanto houver uma única centelha dessa esperança, nenhum destino terá conseguido vencer completamente o ser humano.

Fabiana Ferreira Lopes
Enviado por Fabiana Ferreira Lopes em 19/07/2026
Alterado em 19/07/2026


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