

A ponta do bambu
Quando eu tinha 27 anos, cursava Jornalismo. Queria ser escritora. Sempre tive facilidade com a leitura e com a escrita.
Na terceira série, do ensino fundamental,minha professora disse que não existia faculdade para ser escritor. Se eu quisesse escrever, deveria cursar Jornalismo. Naquele tempo não existiam WhatsApp, inteligência artificial ou redes sociais como conhecemos hoje. A internet era banda discada. O Orkut ainda engatinhava. Consumíamos livros, revistas e jornais. Tenho saudades daquela época. O tempo parecia menos célere, e as pessoas, mais humanas. Entrei na faculdade carregando um sonho: tornar-me redatora da Folha de S.Paulo. Naqueles dias, antes dos portais de notícias funcionando vinte e quatro horas por dia, era um veículo de enorme credibilidade. Prestei a seleção. Reprovei. Prestei novamente. Reprovei outra vez. Na terceira tentativa, a resposta foi a mesma. Imagine a frustração. Eu estava no terceiro semestre, tinha boas notas e via colegas já trabalhando em editoras, revistas e emissoras de televisão. Parecia uma corrida em que todos largavam metros à minha frente. No quarto semestre conheci uma professora de Redação. Nada do que eu escrevia parecia suficiente. "Falta ritmo." "Falta coerência." "Falta profundidade." Cada aula me consumia um pouco mais. Ir à faculdade passou a ser um sofrimento. Até que um dia veio a sentença: — Você não sabe escrever. Talvez devesse repensar se Jornalismo é mesmo para você. Aquilo acabou comigo. Eu, que desde os dez anos sonhava em ser escritora. Eu, que fazia teatro e oficinas culturais. Eu, que lia três livros por mês — às vezes mais. Saí daquela sala e nunca mais voltei. Passei dois anos sem escrever uma única linha. Em 2009, resolvi participar de um concurso literário de uma editora local. Sem expectativa. Sem convicção. Enviei um poema chamado "A Porta". Curto. Direto. Sem estrofes. Mas verdadeiro. Meses depois chegou um envelope pardo. Abri sem nem olhar o remetente. Era a editora. Meu poema havia sido premiado e selecionado para integrar uma antologia. Veio a noite de autógrafos. A leitura dos textos. Os autores reunidos. E eu entre eles. Foi mágico. Foi sublime. Naquele dia compreendi que uma opinião, por mais dura que seja, jamais pode definir um destino. Desde então nunca mais parei de escrever. Hoje são oito antologias publicadas. Participações em Bienais do Livro de São Paulo e do Rio de Janeiro. Uma antologia internacional lançada em Frankfurt. Poemas lidos em um programa de rádio em Portugal. Ainda não publiquei meu livro solo. Mas ele virá. Porque escrever nunca foi apenas uma habilidade. É a forma como minha alma respira. Não tenho milhões de leitores. Mas os que caminham comigo têm um valor que números jamais medirão. Hoje olho para trás e me pergunto se aquelas reprovações e aquela frase da professora foram realmente um mal. Doeram. Quase me paralisaram. Mas não conseguiram impedir aquilo que já era parte de mim. Minha avó Lucília — sempre ela — dizia: "Espinho, quando tem que ter ponta, já nasce com ela." Ela estava certa. Alguns revelam sua ponta cedo. Outros, como eu, levam tempo. Às vezes precisam ser pressionados. Mas continuam ali, aguardando o tempo certo. Talvez a vida seja exatamente isso. Há sonhos que parecem adormecidos. Na verdade, estão criando raízes. Somos como o bambu. Durante anos, nada parece acontecer. Mas, debaixo da terra, a raiz cresce silenciosamente. Fortalece-se. Quando finalmente rompe o solo, vento algum consegue quebrá-lo. Podemos até nos curvar. Nossas folhas podem tocar o chão. Mas quem criou raízes profundas não se parte.
Fabiana Ferreira Lopes
Enviado por Fabiana Ferreira Lopes em 16/07/2026
Alterado em 16/07/2026 Comentários
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