

Quem viveu o Brasil das últimas décadas testemunhou uma relação oscilante e rigorosa do Estado com a jogatina. Em 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra assinou o decreto que pôs fim à era de ouro dos cassinos, silenciando as roletas do Copacabana Palace e do Cassino da Urca sob justificativas morais e religiosas. Décadas mais tarde, nos anos 90, o país viu florescer a febre dos bingos. Casas suntuosas e monumentais brotaram em bairros nobres como Moema e cruzaram as pontes em direção à Zona Norte de São Paulo. Eram palácios da sorte que, nos anos 2000, também viram suas portas lacradas após escândalos de corrupção e lavagem de dinheiro. O recado histórico parecia claro: o Brasil restringia e criminalizava o jogo de azar para proteger a economia popular e a saúde pública. Até que a história deu uma guinada. No apagar das luzes de 2018, em um governo que se estabeleceu após o golpe que derrubou uma presidenta eleita, o então presidente Michel Temer chancelou a Lei 13.756. Com uma canetada, autorizou-se a fixação das chamadas apostas de quota fixa — as populares "bets". O que se seguiu não foi apenas a abertura de um mercado; foi a maior transferência de cassinos da história, que deixaram de ocupar prédios suntuosos nas avenidas para habitar, de forma íntima e ininterrupta, as telas de nossos celulares. O cassino virou de bolso. A velocidade com que essa indústria fincou raízes no cotidiano brasileiro é assustadora, mas o verdadeiro "vespero" desse fenômeno não está apenas na facilidade do Pix ou na engenharia matemática das plataformas. Está na cumplicidade moral de quem se tornou o motor dessa engrenagem: os influenciadores digitais. Pessoas de renome, celebridades e criadores de conteúdo que acumulam milhões de seguidores — e, consequentemente, detêm um poder de persuasão avassalador — transformaram suas redes sociais em balcões de negócios de jogatina. Ao exibirem ganhos fáceis, falsas estratégias e vidas de luxo supostamente financiadas por essas plataformas, eles promovem uma transferência perversa de credibilidade. O seguidor humilde não joga apenas porque quer ganhar; joga porque confia na palavra daquela figura pública que admira. O ápice desse processo é o cinismo escancarado. Em uma postura de lavagem de mãos coletiva, tornou-se comum ver influenciadores gritando publicamente que têm "muito orgulho" de fazer propaganda de bet e que, se o público estiver insatisfeito, deveria "ir reclamar com o governo". Trata-se de uma retórica cínica e covarde em duas esferas. Primeiro, porque ignora a história: quem abriu a porteira legal das apostas não foi o atual governo, mas a gestão de 2018. Segundo, e mais grave, porque tenta desvincular a responsabilidade civil e moral de quem lucra alto para empurrar o vício goela abaixo da população. As mazelas desse mercado já batem à porta das famílias brasileiras. O jogo patológico (ludopatia) corrói salários, destrói orçamentos domésticos destinados à alimentação básica e adoece a saúde mental de milhares de cidadãos. Quem faz propaganda de bet sabe — ou deveria saber — que o modelo de negócios dessas casas se baseia estruturalmente na perda do apostador. Lucrar sobre a ruína financeira alheia e, quando confrontado, empurrar a culpa para o Estado é a definição perfeita da falta de responsabilidade social. Quem sai na chuva é para se molhar. Se o mercado da influência decidiu descer para o "play" do entretenimento predatório, precisa estar pronto para lidar com a cobrança ética da sociedade. A história do Brasil mostra que a ilusão da jogatina fácil sempre cobra seu preço. Resta saber quanto tempo levaremos para regulamentar com punho de ferro o cinismo daqueles que enriquecem vendendo a ruína em doses diárias de tela.
Fabiana Lopes é escritora, articuladora de políticas públicas e defensora dos direitos sociais, com foco em saúde e neurodivergência.
Fabiana Ferreira Lopes
Enviado por Fabiana Ferreira Lopes em 09/07/2026
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