Fabiana Ferreira Lopes

" A vida só se da para quem se deu" Vinicius de Moraes

Textos

Do Colapso à Prevenção: Como as Práticas Integrativas podem reduzir a fila da saúde mental no SUS de Santo André
Em uma noite qualquer do mês de outubro de 2020, fui dormir com uma forte dor de cabeça. Acordei horas depois em um leito de UTI, diagnosticada com uma isquemia. O diagnóstico médico foi claro, mas a causa real era invisível aos exames de sangue: anos de estresse crônico negligenciado, uma mente fragmentada e um corpo levado ao limite do esgotamento. Naquele dia, a medicina alopática de alta complexidade salvou a minha vida na crise. Sou eternamente grata a ela. Mas foram a Aromaterapia, a Fitoterapia e o olhar sistêmico das Práticas Integrativas que me reabilitaram e impediram que eu voltasse para aquele leito. Eu precisei quase morrer para entender que a saúde não pode ser esperada na UTI; ela precisa ser construída na base, no dia a dia.
O meu colapso pessoal, infelizmente, reflete o colapso coletivo que Santo André e o Brasil enfrentam hoje. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país mais ansioso do mundo e o mais depressivo da América Latina. Quando olhamos para o nosso município, a realidade bate à porta dos postos de saúde: os transtornos mentais e comportamentais (classificados pelo CID-10 no Grupo F) estão entre as principais causas de afastamento do trabalho e de busca por atendimento de urgência nas nossas UPAs.
Atualmente, a gestão pública de saúde no Grande ABC enfrenta um desafio hercúleo: o financiamento de tratamentos tardios. Estamos enxugando gelo. O sistema acolhe o cidadão quando ele já está em crise aguda, gerando um custo altíssimo com internações, consultas especializadas que demoram meses na fila de espera e uma distribuição massiva de psicotrópicos. Longe de ignorar a importância vital dos CAPS e dos medicamentos tarja preta na estabilização de quadros graves, o que se questiona é a falta de alternativas na base. Medicamos a consequência, mas ignoramos a causa. O corpo do trabalhador andreense está gritando por socorro, e a resposta padrão do sistema, muitas vezes por falta de alternativas na ponta, tem sido o enclausuramento químico.
A solução para esse cenário não é utópica, não é "alternativa" e, acima de tudo, é lei. As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) são respaldadas pela Política Nacional do SUS desde 2006, através da Portaria Ministerial nº 971. Cidades de vanguarda como Florianópolis e São Paulo já entenderam o desenho estratégico dessas práticas: elas utilizam a Auriculoterapia nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) para reduzir as filas de espera por psicólogos e psiquiatras em casos de ansiedade leve e moderada, e a Acupuntura para o manejo da dor crônica. O impacto? Estudos de gestão pública apontam uma redução de até 40% nos gastos com a dispensação de medicamentos controlados nessas redes. Santo André tem o arcabouço, tem a necessidade, mas ainda carece do acesso amplo e capilarizado.
O Brasil, detentor de uma das maiores biodiversidades e floras do planeta, tem tudo para ser a vanguarda global em cuidados integrativos. Se nações como a China integraram perfeitamente a sua Medicina Tradicional aos hospitais de alta tecnologia e ao conhecimento científico, trabalhando lado a lado de forma harmoniosa, por que o nosso país não pode construir um modelo que some a força de milhares de terapeutas éticos ao sistema oficial? A própria Organização Mundial da Saúde preconiza que a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental, emocional e social, e não meramente a ausência de patologias. É um olhar sobre como o indivíduo vive, como se relaciona e como reage às pressões cotidianas.
Como Terapeuta Integrativa, especialista na prescrição de fitoterápicos, e atuando diretamente no cuidado, no bem-estar e no acolhimento, vejo diariamente em minha sala de atendimento o que o modelo tradicional muitas vezes apenas conteve. Tratar a insônia crônica puramente com Zolpidem ou a ansiedade generalizada apenas com benzodiazepínicos cria um ciclo de dependência que mascara o problema. Quando associamos o tratamento médico à reeducação do sistema nervoso por meio do óleo essencial de Lavanda (Lavandula angustifolia) e à modulação fitoterápica com passiflora ou camomila, nós devolvemos a autonomia ao indivíduo. Não se trata de exclusão. É soma. A alopatia atua no topo da crise, segurando a queda; as PICS atuam no solo, ensinando o interagente a não cair.
Para transformar essa realidade em Santo André, proponho três passos de baixíssimo custo de implementação e altíssimo impacto social e financeiro para a nossa rede municipal:
1. Capacitação em Massa da Atenção Primária: Formar os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e técnicos de enfermagem das nossas UBSs em Auriculoterapia. O custo de formação por profissional é irrisório se comparado ao valor de uma única guia de consulta especializada que deixa de ser gerada porque a ansiedade do interagente foi acolhida na comunidade.
2. Implantação de Grupos de Cuidado nos Contraturnos: Utilizar o espaço físico já existente das UBSs para a criação de rodas de aromaterapia, meditação e práticas corporais, promovendo a socialização e a saúde mental preventiva para idosos e trabalhadores.
3. Hortas Fitoterápicas Comunitárias e Farmácias Vivas: Resgatar o conhecimento botânico através de parcerias com os parques e áreas verdes de Santo André, transformando espaços ociosos em centros de cultivo de plantas medicinais regulamentadas pela Anvisa, gerando educação, insumos para a rede pública e pertencimento comunitário.
A prevenção custa centavos aos cofres públicos; o tratamento da crise custa milhões de reais e vidas despedaçadas. Eu tive o privilégio técnico e o suporte familiar para me recuperar do meu colapso e transformar a minha dor em ciência e profissão. A imensa maioria da população de Santo André não tem esse tempo e nem esses recursos.
A saúde mental não pode ser tratada como uma pauta secundária de gabinete; ela é uma urgência humanitária e econômica. Santo André pode escolher: continuar pagando a conta altíssima do adoecimento crônico na média complexidade ou investir na dignidade da prevenção antes que o colapso aconteça. Eu já escolhi o meu lado e estou trabalhando por ele. E as nossas lideranças públicas, de qual lado estarão?
Fabiana Ferreira Lopes
Enviado por Fabiana Ferreira Lopes em 01/07/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras